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Arquitetura e feminismo – uma entrevista com Zaida Muxi

06/03/2020
Zaida Muxi

“O urbanismo é ferramenta para igualdade”

Natural de Buenos Aires, onde se formou arquiteta, Zaida Muxi foi uma das primeiras estudiosas das questões de gênero aplicadas ao urbanismo e à arquitetura. Em Barcelona, onde vive desde 1990, ela formou um coletivo e uma rede de pesquisas sobre o tema. Segundo Zaida, as cidades quase sempre são constituídas de forma a refletir e consolidar estruturas patriarcais e desigualdades. Mas o urbanismo pode ser usado como uma ferramenta para mudar essa situação. Nesta entrevista, ela menciona outras mulheres que atuam nas questões de gênero e cidade, e adianta um pouco da temática que debaterá no o 27º Congresso Mundial de Arquitetos.

Mujeres casas y ciudades livro de Zaida Muxi

Zaida Muxi trabalhou para a Junta de Andalucía, para a Generalidade de Catalunya e para secretarias de habitação em São Paulo e em Buenos Aires. Hoje leciona na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona. É autora dos livros Mujeres, casas y ciudades – Más allá del umbral e, junto a Josep Maria Montaner, Arquitectura y Política.

1. Como coautora do livro Arquitectura y Política, como você explica o papel social e político que exercem - ou podem exercer - os arquitetos e urbanistas?

O livro Arquitectura y Política foi escrito conjuntamente com Josep Maria Montaner, e derivou de uma disciplina opcional que oferecemos na Escola de Arquitetura de Barcelona, há mais de dez anos. Não existe, evidentemente, uma maneira única de ser arquiteto ou arquiteta, mas consideramos que o exercício da arquitetura, em quaisquer das suas variações, é político; qualquer ação nossa é uma ação política. Não podemos pensar que estamos resolvendo unicamente problemas técnicos. Não há um problema que seja somente técnico. Consequentemente, o que nós desejamos transmitir é que o arquiteto deve ser consciente da sua responsabilidade; cada um deve trabalhar levando em conta a sua própria responsabilidade, que tem a ver com as suas ideologias, crenças e posições no mundo. O livro e o curso também pretendem mostrar outras maneiras de fazer arquitetura, além daquelas normalmente ensinadas, sobre grandes estrelas, arquitetos que transitam pelo mundo construindo edifícios que têm escassa relação com as pessoas que moram no local. Pensamos numa arquitetura que encontra suas raízes nos locais, nascida do conhecimento social, do respeito e da procura de práticas verdadeiramente sustentáveis. Essa é a nossa intenção.

2. Você acredita que as cidades refletem e contribuem para consolidar, reforçar e perpetuar estruturas sociais por vezes indesejáveis (por exemplo as que se baseiam no patriarcado, na desigualdade de gênero e de classe)? Como isso se evidencia?

R. Evidentemente, os espaços que habitamos, desde a nossa casa até a cidade, refletem as estruturas sociais, e, por isso, refletem as hierarquias sob as quais foi construída a nossa sociedade. Estão presentes o patriarcado e, sobretudo, a diferença de classes. Nas cidades isso se evidencia quando se expandem indefinidamente, sem um planejamento adequado de bairros que ofereçam todas as possibilidades para a vida das pessoas em todas as suas fases, ou seja, para pessoas de todas as idades, com suas diferentes capacidades. Não se pode pensar, por exemplo, em bairros só para moradia, sem a mistura de usos, sem a mistura de pessoas. A cidade, por definição, é o espaço da diversidade. Então, quando fazemos bairros homogêneos, não estamos fazendo cidades, estamos fazendo uma outra coisa. Estamos construindo, fisicamente, a segregação que existe na nossa sociedade. Também quando não apostamos no transporte público, e no seu lugar optamos por estradas e mais estradas. Estamos segregando porque os que transitam em veículos privados e utilizam as estradas são minoria. Além da segregação de classe, temos a segregação de gênero nas sociedades. O gênero feminino está ausente no planejamento e decisão das cidades e as mulheres não são levadas em conta em nossa sociedade. Existem várias evidências das desigualdades de classe, de raça, de gênero. Quantas praças ou monumentos levam, por acaso, o nome de uma mulher? Que pessoas, sem pertencer a classes poderosas ou com outra cor de pele que não seja a branca, têm seus nomes nesses espaços públicos? Isso acontece porque a história na qual as decisões se baseiam tem sido relatada a partir de um ponto de vista único, que é o ponto de vista masculino, que é o do branco e que é o ponto de vista das classes altas e poderosas.

3. Como podemos mudar isso?

R. A forma de mudar essas cidades segregadas, tanto em função de classe como de gênero, tem a ver com o pensamento de que o urbanismo é uma ferramenta de igualdade, e que a prioridade é o direito à vida e não o direito à propriedade. Devemos, portanto, trabalhar a favor de uma mudança na ideia do que é realmente prioritário. As cidades devem valorizar a vida, para que possamos viver nelas com segurança. Devem também favorecer e cuidar do entorno e do ambiente. Nós, como seres humanos, fazemos parte de um ecossistema. Até agora temos vivido numa crença falsa de que o homem, o macho das espécies, é o mais importante. Devemos mudar o nosso olhar a respeito do entorno ecossistêmico ao qual pertencemos.

4. O que significa aplicar a perspectiva de gênero na arquitetura e no urbanismo?

R. Significa abrir os olhos, abrir o cérebro perante as necessidades que até agora não foram visualizadas. São as necessidades que têm a ver com a vida cotidiana, com cuidados imprescindíveis para todas as pessoas. Significa levar este conhecimento e informação para os novos projetos. E este conhecimento e informação estão com as mulheres. Por isso, é necessário um trabalho com as mulheres a fim de programar quais são as necessidades que o urbanismo e a arquitetura devem resolver.

5. Quando esse tema começou a ser debatido?

De certa forma, falar de gênero e cidade é uma consequência lógica das diversas lutas que o feminismo tem experimentado durante séculos. Desde o século XVIII, há luta ou reclamação do feminismo pelo direito de as mulheres serem “pessoas de direito”, de terem acesso à educação, por exemplo. Depois, em meados do século XIX, há a reivindicação pelo direito ao voto universal e pela abolição da escravidão.

6. Existem exemplos de iniciativas com esta perspectiva?

R. De alguma forma, falamos em direitos, e isso fica evidente a partir da denominada terceira onda, nos anos 1960; fundamentalmente, no campo da arquitetura ou do pensamento urbano, a partir de duas mulheres, uma delas declaradamente feminista, Betty Friedan, e a outra não, mas que com toda certeza foi também feminista pela sua atitude, Jane Jacobs. Dois livros marcaram esse novo pensamento: A mística da feminilidade, da Betty Friedan, e Morte e vida das grandes cidades. Foi quando, pela primeira vez, ficou evidente a falta do direito das mulheres e sua relação direta com o tipo de cidade que se constrói. Betty Friedan denuncia isso a partir da denominada “doença sem nome”. Ela mostra como o subúrbio americano é um cárcere, um espaço que adoece as mulheres. Por sua vez, Jane Jacobs, nos convida a pensar as cidades a partir do olhar cotidiano, do que é corriqueiro. Depois, nos anos 1970, grupos de mulheres passaram a reclamar a noite, dizendo que a noite é delas também, que elas devem poder sair pela cidade não somente durante o dia. Tanto para irem de festa, como para trabalhar. O direito à cidade tem a ver com o direito das mulheres à segurança e com a sua autonomia.

Nos anos 1980, também a geógrafa inglesa Doreen Massey começou a refletir sobre a maneira como a distribuição do solo nas cidades e territórios é desigual e como há muito mais espaços dedicados aos homens que às mulheres. Ela fez, naquele momento, uma reflexão a partir da sua própria infância, ao lembrar como, nos dias de sábado, ela devia ir a fazer as compras com a sua mãe em Londres, e, do trem, via nos campos meninos, jovens e homens jogando futebol ou rúgbi. Enquanto eles tinham espaço para se divertirem, ela tinha de cumprir com uma obrigação, um trabalho não reconhecido.

Nos anos 1990, a cidade de Viena adota umas políticas claras de urbanismo com a perspectiva de gênero, lideradas pela engenheira e urbanista Eva Kail, que fez projetos piloto de bairros e intervenções em master plans, com a perspectiva de gênero, assim como fez moradias e conjuntos habitacionais, também com essa perspectiva. Há ainda uma outra linha de pensamento que tem a ver com a perspectiva de gênero e que é relacionada à segurança. Também nos anos 1990, em Montreal, foi feito um trabalho com as mulheres, em que se definiu quais são os aspectos que têm a ver com a segurança e com a mulher nas cidades – a autonomia, a representatividade e outros. Escrevi um artigo sobre esse estudo com o coletivo Lectiu Punt 6.

O coletivo Punt 6 em ação em Barcelona Foto Diego Yriarte
7. Como é o trabalho do coletivo, o Col·lectiu Punt 6?

R. O Col-lectiu Punt 6 é um grupo que constituímos no ano de 2005, a partir de um encontro em Barcelona sobre Urbanismo e Gênero. Naquela ocasião, fiz um primeiro trabalho sobre a questão de gênero, com a então bolsista Anna Puigjaner e, a partir daquela primeira oficina, começamos a reunir um grupo de mulheres e um homem, todos interessados em entender o que era o feminismo, o que era o urbanismo com perspectiva de gênero. Começamos então a ler, a procurar informação, começamos a nos formar no tema, e isso também coincidiu com umas oficinas oferecidas pelo Instituto Catalão das Mulheres para instruir sobre urbanismo e gênero as mulheres daqueles territórios. Para nós, foi um grande aprendizado; fizemos quase 100 workshops pelo território catalão, falando com mulheres de todos os tipos e em todas as situações, e aprendendo muito sobre o que significam na vida cotidiana as diversidades e a maneira com que isso se constitui como um conhecimento imprescindível para projetar as cidades, mas que, em geral, nunca se leva em conta. Então, até hoje temos percorrido um longo caminho. O grupo fez duas teses de doutorado, a terceira está a caminho, Sara Ortiz e Adriana Ciocoletto fizeram as suas teses, e Blanca Gutiérrez está perto de finalizar a sua, além de terem sido publicados muitos livros. Por motivo de incompatibilidade no trabalho eu não faço mais parte daquela equipe, apesar de, e evidentemente, continuarmos sendo grandes amigas. Hoje elas trabalham em muitas áreas; estão assessorando, por exemplo, o transporte metropolitano de Barcelona para fazer recomendações em diferentes escalas e situações, a fim de incorporar a perspectiva de gênero nos transportes.

8. Na sua carreira profissional, quais trabalhos lhe renderam maior satisfação e orgulho?

R. Como o meu trabalho profissional fundamental é ser professora, o que me causa maior satisfação é ver como as ideias que tenho adquirido e que desenvolvo desde o coletivo Punt 6, ou com Josep Maria Montaner, foram transmitidas e desenvolvidas em aula com os estudantes, e ver como depois esses profissionais colocam em prática, em seu trabalho, alguma coisa daquilo que foi conversado nas aulas. É uma grande satisfação ver como essas ideias são disseminadas. Isso foi especialmente forte no Master em Habitação, que fizemos durante dez anos, e onde transformamos quase 200 pessoas – muitas delas estão ocupando hoje posições de relevância em diversas cidades ou universidade do mundo, e aplicam questões trabalhadas em profundidade no Master em Habitação, tais como a (des)hierarquização da moradia, a participação de usuários e usuárias, a visibilidade das mulheres na profissão. Ver tudo isso aplicado e estendido traz um sentimento de grande orgulho. Agora, falando de projetos, tenho desenvolvido um projeto de habitação e, evidentemente, sempre é uma satisfação fazer com que as pessoas morem bem e se sintam à vontade. É muito bom sentir que você fez alguma coisa que a pessoas necessitavam. Foi assim também nos trabalhos realizados em São Paulo e em Buenos Aires, quando procurava oferecer recomendações para melhorar as situações nas favelas e ver como tudo isso, por mais que não tenha um efeito instantâneo, vai aos poucos tendo algum impacto e algumas das coisas trabalhadas se tornam realidade. Digamos que não existe uma única questão que me dê satisfação, mas, em geral, o fato de ter conseguido manter uma coerência em pensamento e na ação.

9. Quais as suas expectativas para o 27° Congresso Mundial de Arquitetos?

R. As expectativas a respeito do Congresso UIA 2020, no Rio de Janeiro, são de que as apresentações – de projetos e de textos – mostrem a diversidade da profissão e mostrem profissionais, homens e mulheres, comprometidos com o entorno, com as pessoas. E ainda que busquem dar respostas inovadoras, não mais desde o laboratório, entendido como espaço fechado de autogeração, mas desde o conhecimento da realidade. Quer dizer, uma inovação baseada no social, com uma aspiração à igualdade e com cuidado com o planeta.

10. Que está pensando abordar na sua apresentação?

R. Pretendo falar sobre os temas abordados nesta entrevista; sobre o significado do urbanismo feminista e seus impactos, sobre a aplicação da perspectiva de gênero nas cidades e nos bairros.

11. Qual a mensagem que você tem para convidar os arquitetos(as) do mundo para assistirem a este evento?

Acredito que por ser realizado na cidade do Rio de Janeiro, esse evento oferecerá muitas oportunidades de aprendizado e, por outro lado, é um encontro entre colegas de todo o mundo, o que é sempre muito enriquecedor. Eu também insisto na perspectiva que este Congresso está propondo a respeito de ampliação dos pontos de vistas, dos objetivos e dos campos profissionais. Então, acho que todas as pessoas vão se sentir incluídas.


Leia também a reportagem publicada pelo CAU/BR:
https://www.caubr.gov.br/dia-internacional-da-mulher-o-espaco-da-mulher-na-arquitetura-e-nas-cidades/



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