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“A Arquitetura ajudou a moldar o profissional que me tornei como carnavalesco”

19/02/2020
“O arquiteto é um eterno sonhador que deseja construir
um mundo melhor através dos seus projetos e isso foi
algo que eu trouxe para essa nova profissão de
carnavalesco: fazer sonhar uma comunidade”
Foto – Arquivo Pessoal

Um arquiteto que virou carnavalesco, mas que não deixou de ser arquiteto. Esse é Jaime Cezário, que começou sua vida profissional na Arquitetura mas conseguiu entrar no mundo de sonhos do Carnaval, tornando-se carnavalesco de escolas como Estação Primeira de Mangueira, São Clemente, Caprichosos de Pilares, Paraiso do Tuiuti, Acadêmicos do Cubango, Leão de Nova Iguaçu, Porto da Pedra e Engenho da Rainha (onde começou, em 1992). Fora do Rio, Jaime também foi carnavalesco da Rouxinóis, em Uruguaiana (RS), e preparou o carnaval deste ano da União da Ilha da Magia, de Florianópolis (SC).

Professor e pesquisador, Jaime já integrou o corpo docente do Instituto do Carnaval do Rio de Janeiro (2006-2010) e em 2007/2008 elaborou a pesquisa para a declaração das Escolas de Samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro como Patrimônio Cultural Carioca. Foi colunista de jornal e comentarista de rádio – sempre falando sobre Carnaval ¬ – e em 2013 tornou-se o primeiro carnavalesco a ter uma obra exposta em acervo permanente de um museu internacional: a fantasia das baianas da Cubango no Carnaval de 2012 entrou para o acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Iowa/USA, onde fica exposta no setor das festas folclóricas da América Latina.

Na última segunda-feira (17/2), Jaime fez uma palestra, com apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), no auditório do Instituto Pereira Passos sobre “A Arquitetura do Carnaval”. E é sobre esse tema que ele conversou com nossa equipe de comunicação.

O Carnaval tem uma arquitetura? Tem lugar para um arquiteto no carnaval?

O Carnaval é pura arquitetura, uma arquitetura que é feita para durar um tempo determinado por cada desfile para depois se eternizar na memória. Nesse processo, o carnavalesco é o arquiteto dos sonhos, onde a cada ano cria todo o projeto de fantasias e alegorias com pesquisa de arte baseados no enredo proposto pela escola de samba.

Tudo começa com um texto, a sinopse, que será a base da pesquisa para os compositores montarem o samba-enredo e o carnavalesco executar o Projeto Carnaval. A partir da sinopse, é desenvolvido o roteiro do desfile, onde o enredo será dividido em setores e cada setor será composto de fantasias e alegorias de um tema específico. A partir daí, começa uma grande viagem criativa na história da indumentária e da arte para criação de figurinos e alegorias. E isso tudo deve estar perfeitamente adequado ao tempo histórico em que o enredo se desenvolve.

Definidas fantasias e alegorias, parte-se para a arte final, que será encaminhada aos ateliês de fantasias e ao barracão de alegorias. O serviço do carnavalesco e sua equipe, a partir daí, será o de fiscalizar a confecção das fantasias e alegorias. E, com o projeto finalizado, o carnavalesco se torna o grande supervisor geral de toda construção desse sonho chamado Carnaval.

No meu caso em especial, sendo um arquiteto formado e com paixão pelo Carnaval, nos primeiros anos tive que complementar meu conhecimento estudando a história da indumentária. Na História da Arte tive que apurar meus conhecimentos em minúcias como detalhes de ornamentação e dos mobiliários característicos dos estilos da arte. Fora tudo isso, sempre fui um apaixonado pela História universal, o que me ajudou nas pesquisas de enredo e criação de sinopses.

O arquiteto hoje tem espaço no carnaval? Com absoluta certeza afirmo que sim! Com seu conhecimento técnico e artístico em projeto e na História da arte, ele é um dos profissionais mais bem preparados para atuar na equipe de um carnavalesco.

A falta de urbanização das favelas onde moram as comunidades das escolas de samba se reflete, ou impacta, no carnaval apresentado por elas?

No início, os sambistas eram marginalizados, perseguidos pela polícia e era proibido se reunir para cantar e dançar samba. Mesmo contra tudo e todos, essas pessoas não perderam o desejo de ver sua criação tomar conta do asfalto, que era como eles chamavam o espaço urbano controlado pelo poder público. O morro sempre foi seu território livre, liberto de proibições e perseguições. Aos poucos foram conquistando seu espaço na sociedade dominante e tiveram o direito de desfilar pelas ruas da cidade com as comunidades cantando e dançando o samba de forma orgulhosa. Esse grupo de pessoas recebeu o nome de escola de samba e a partir de então foram quebrando todas as barreiras até se tornarem o maior espetáculo audiovisual do planeta.

As favelas tiveram um crescimento quase tão igual aos desfiles de suas escolas de samba, só que de forma desordenada. Ao invés de beleza e encantamento, cresceram carentes de serviços básicos e de urbanização, por descaso das autoridades públicas. Mesmo assim, são comunidades super criativas e que não têm a mão de nenhum arquiteto, são microcidades dentro da cidade. Seus moradores possuem consciência desse descaso, mas se orgulham de fazer parte dessas comunidades, como fica claro na letra do samba da Unidos da Tijuca: “A minha felicidade mora nesse lugar. Eu sou Favela. O samba no compasso é mutirão de amor. Dignidade não é luxo, nem favor.”

O impacto que causa o descaso do poder público nessas comunidades se reflete a cada ano nos desfiles das suas escolas de samba, de forma que seja deixado um recado de organização, beleza, luxo e requinte. Podem estar esquecidos pelas autoridades, mas mostram a todos que, mesmo vivendo com simplicidade, não perdem a alegria e querem ter o direito de viver com dignidade.

Como foi para você, um arquiteto com uma carreira formada, de repente ter que montar, planejar e pensar um desfile de uma escola de samba? No que sua experiência de arquiteto o ajudou, e o que o Carnaval ensinou ao arquiteto Jaime Cezário?

Em 1990, o novo presidente eleito foi Fernando Collor e com ele veio um plano que acabou com o emprego de muitos brasileiros, entre eles eu, que trabalhava no Departamento de Arquitetura das Lojas Americanas. Eram 18 arquitetos e com a chegada do plano ficaram apenas três. Um período complicado onde tínhamos que ser bastante criativos para poder pagar as contas do fim do mês. A possibilidade surgiu quando o arquiteto e amigo Luiz Eduardo Pinheiro me desafiou a buscar meu sonho de fazer Carnaval. Era o ano de 1992, Luiz Eduardo havia feito contato com o presidente da Escola de Samba Engenho da Rainha, que desfilava no Grupo de Acesso ao Grupo Especial, comentando com eles do meu desejo em trabalhar como carnavalesco. A escola estava numa fase de mudanças e desejava fazer alterações, exatamente na criação artística para desenvolver o Carnaval de 1993... E foi assim que comecei minha carreira no Universo do Carnaval, 28 anos atrás.

O início foi por tentativas de acertos e erros, mas a cada carnaval fui aprendendo mais e mais, pesquisando, viajando, buscando complementar o que me faltava em conhecimento. Durante quase 20 anos atuei nas duas funções; arquiteto e carnavalesco, e nunca deixei de estar regularizado no CREA-RJ e no CAU-RJ.

A Arquitetura de forma definitiva ajudou a moldar o profissional que me tornei como carnavalesco. O arquiteto é um eterno sonhador que deseja construir um mundo melhor através dos seus projetos e isso foi algo que trouxe para essa nova profissão de carnavalesco: fazer sonhar uma comunidade e um público apaixonado pelo Carnaval com a possibilidade de um mundo melhor através de um desfile que exalta em seus enredos a cultura, a liberdade e a igualdade!



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