O primeiro dia de apresentações do II Congresso Internacional de Arquitetura e Sustentabilidade na Amazônia (II ARQAmazônia) demonstrou o poder da arquitetura em transformar o meio ambiente sem degradá-lo, usando materiais renováveis e técnicas de conforto técnico e ambiental. O evento, que reúne pesquisadores e projetistas de diversos países da América Latina, é preparatório para o 27º Congresso Mundial da União Internacional dos Arquitetos, que será realizado pela primeira vez no Brasil, em 2020, no Rio de Janeiro.

Para Patricia O’Reilly, não deveria existir a edificação de “arquitetura sustentável”. Ela acredita que toda arquitetura deveria incorporar esses conceitos. A arquitetura e urbanista apresentou o projeto Mirante do Gavião Amazon Lodge, hotel localizado no Rio Negro, em Manaus. Para fazer o hotel, Patricia buscou o conhecimento de Seu Aderson, um conhecido construtor de barcos amazonense. De início, Aderson recusou a missão, afinal ele era um construtor de barcos, e não de edificações. “E se a gente fizer um barco de cabeça para baixo?”, perguntou Patrícia. Deu certo. Aliando o conhecimento tradicional dos barqueiros com um software que calcula o nível de conforto térmico de edificações, Patricia fez o chamado desenho bioclimático: usar o clima local em benefício da Arquitetura.

“Tivemos que usar ar-condicionado para garantir a melhor temperatura, mas com inteligência, para corrigir apenas o que o desenho bioclimático não conseguia. Os brises no teto criaram uma microventilação entre as hastes, fazendo o resfriamento da cobertura, sem precisar de isolamento térmico”, explica. Segundo ela, o objetivo é sempre dimensionar o projeto de forma para usar o minimo de recursos possíveis. Captação de chuva, placas fotovoltaicas, horta orgânica, tudo entra no projeto. “Hoje já é possível fazer projetos sustentáveis sem sobrecusto. Há cinco anos não era possível”.

Arquitetura de terra

A arquiteta gaúcha Viviane Martins apresentou seu projeto para a Base de Apoio da Reserva Biológica do Lago Piratuba, no Amapá. O projeto foi estruturado com paredes de taipa ensacada, painéis de serragem e cimento, sanitário seco e cisternas para captar água da chuva. “Construção sustentável deve privilegiar materiais locais, cuja extração cause o mínimo de impacto ambiental”, afirmou. No caso da base de apoio, as vantagens são a facilidade para treinar a mão de obra, a fácil aplicação e baixo impacto ambiental. As desvantagens são o peso excessivo e a dificuldade de instalação (as paredes ficam com 30cm de largura).

Vitor Pessoa, do escritório Vipe Arquitetura, trouxe o projeto de uma residência em Manaus, em um local com mata densa e próxima aos rios. “Queríamos um ar contemporâneo, mas com respeito ao meio ambiente. A casa está em um terreno arenoso, boa parte da casa é suspensa, como nas palafitas, e isso ajuda na ventilação. Trabalhamos com madeira certificada, 80% do piso é de madeira local”, afirmou. A sede do escritório também é suspensa e feita com contêineres. “Em Manaus, uma cidade industrial, há bastante descarte de contêineres. O desafio é a questão térmica: tratamos os contêineres com drywall e isolantes térmicos, com exaustores entre as paredes”, revelou. O uso dos contêineres também se justifica pelo fato de o terreno ser alugado. Assim, o escritório pode mudar sua localização aproveitando até 90% do que foi construído.

Já o pesquisador mexicano Luis Alberto Torres Garibay apresentou como são feitas as casas de madeira dos povos indígenas da região de Michoacán, no México. São casas quadradas e pequenas, compostas geralmente por um quarto, com varanda e sem janelas, e usadas apenas para dormir, já que as comunidades convivem em tem amplos pátios integradas à lavoura. A mesma construção é usada também para vendas e comércios. A fundação é feita de pedras, cobertas por um tablado de madeira. Tudo é feito manualmente. A madeira das paredes passa por vários processos de corte e desgastamento. “Essa atividade está se perdendo pela aparição de novas tecnologias e da pobreza em que vivem essas comunidades indígenas. Está se perdendo essa transmissão de conhecimento e os processos de sustentabilidade”, afirmou Luis. “É um patrimônio que deve ser preservado, nas construções em madeira estão os valores de uma comunidade, a manufatura, os modos de vida, as ferramentas e muitos outros aspectos culturais”, destacou.

Vegetação e temperatura

O arquiteto Jaime Kuck, presidente do CAU/AM, lembrou dos projetos que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) financia em Manaus. Na tentativa de melhorar as vias da cidade, ocupa-se os fundos de vale com concreto, o que altera o microclima da área. “Se nós mantivéssemos a vegetação, teríamos microclimas melhores, com mais ventilação”, explicou. “Estamos indo na contramão dos desafios urbanos e ambientais. Para reverter isso, a gente precisa olhar o discurso dos nossos candidatos, para ver se eles têm projetos urbanos sustentáveis de médio e longo prazo”. Jaime Kuck pede que haja incentivo governamental para desenvolver a indústria de técnicas construtivas sustentáveis, para que essas técnicas sejam mais disseminadas.

Viviane Martins destacou que a disseminação de tecnologias sustentáveis às vezes é mal recebida pelos técnicos das prefeituras que aprovam os projetos. “O sistema fossa-filtro-sumidouro é insustentável, mas se você fizer outra proposta, como tratamento por zonas de raízes, o técnico da prefeitura não sabe o que é isso, não vai aprovar”. Ela destaca que os projetos precisam ter significado para a população, ela precisa participar dessas escolhas.

O presidente da Federação Pan-Americana de Arquitetos, João Virmond Suplicy Neto, destacou que a arquitetura deve sempre atentar para os materiais, o clima e aos usos e costumes da região. “Matéria-prima local é a base da sustentabilidade”, afirmou. Como exemplo, ele lembrou as obras de Severiano Porto, que se utilizam de técnicas tradicionais das populações amazonenses, como o uso de palafitas, varandas e redes. “Severiano soube fazer a tradução de elementos indígenas para a arquitetura contemporânea”, disse João. O professor Roger Ibrahim também citou Severiano como referência na área, mostrando suas obras na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Vegetação mantém a umidade alta e a temperatura baixa. Tem que ter ventilação no ático, e os beirais ajudam as paredes a não esquentarem muito nem molharem”, afirma. “Arquitetura Sustentável não é um nicho de mercado, é uma proposta de como construir as cidades. Nós temos que ter domínio técnico e cultural da profissão”, diz o arquiteto Marcelo Borborema.

 
 
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